Poemas para um anjo

 

Construção de versos

Apresento algumas tentativas de escrever poemas e, com mais tenacidade, de elaborar sonetos, essa composição poética cujo último verso, de um total de 14, encerra a ideia principal da construção.

Alguns são do tempo em que eu ainda residia em Guanambi, um ano antes de me mudar para Salvador, em 1972. São intimistas e juvenis, características que foram perdendo conforme meu amadurecimento, e também pela saudade que sentia dos meus familiares e amigos, para se revestirem de reflexão e, em certos momentos, de angústia.

Entre 1975 e 1978, alguns escritos vão da linguagem política revolucionária do Movimento Estudantil, ao qual eu estava engajado, à influência do verso intimista, porém universalista, do poeta Damário Dacruz (1953-2010), meu colega no curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia.

Por influência de Damário, conheci a poesia de Rainer Maria Rilke (1875-1926) e seus ensinamentos: “Evite formas usais e demasiado comuns, são as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes”.

Em 1978, já trabalhando na Redação do jornal A TARDE, em Salvador, conclui o curso de Jornalismo e me afastei do Movimento Estudantil. Minhas tentativas de escrever poesias foram interrompidas em 1979, quando as atividades profissionais começaram a exigir de mim mais dedicação.

No início dos anos 1980, os poemas, basicamente, retratam uma fase mais intimista, voltada para familiares e amigos. Os primeiros escritos são da época no nascimento de Mariana, primeiro filho. Por essa ocasião, iniciei as tentativas de construção de sonetos.

Eles não apresentam nenhuma simetria, nenhuma preocupação em manter as estrofes em decassílabo, como geralmente são os sonetos, embora todos sejam com 14 versos, divididos em quatro estrofes: dois quartetos e dois tercetos, como são os sonetos italianos.

Os escritos mais atuais se distanciam do fraseado das décadas de 70 e 80 para buscar a universalização de que tanto me falara Damário Dacruz. “Liberte-se do seu umbigo, universalize-se”, dizia o poeta. A busca é contínua e não basta querer, é preciso escrever. Certamente, ele me diria:

Sou homem.
Portanto,
mais que palavras.
Não pronuncio
o sentimento
apenas como palavra.
O que foi dito
ao entardecer
não se confirma
na madrugada.
O que foi visto
no sonho
não se confronta
com a realidade.
Sou um homem.
Portanto,
Uma surpresa.

In Caixa-preta, do livro Todo Risco – Ofício da paixão (Salvador: Pouso da Palavra, 2003)

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